Uma brasileira no sistema de educação Tcheco.


Eu nunca imaginei estudar na República Tcheca. Quando fui admitida no mestrado, cujo programa inclui a passagem em três universidades, sendo a principal delas na cidade de Olomouc, na República Tcheca, eu pensei “e agora?”. Eu me assustei, fiquei pensando em todas as diferenças entre Brasil e República Tcheca. O clima, a língua, a cultura, a comida, o sistema de ensino… Confesso que no avião para Praga eu estava muito apreensiva.

Com o passar do tempo, eu descobri que muitos dos meus medos eram infudados ou transponíveis. De fato, faz muito frio na República Tcheca, mas sabe do quê? Lá também existem agasalhos próprios para te ajudar a enfrentar o inverno. A língua tem origem eslava, muito longe do latim, eu mesma tomei muitas aulas de tcheco (com o Martin e tabém durante a minha estadia na República Tcheca) e posso dizer que hoje em dia eu consigo sobreviver com o que aprendi, e mesmo que eu só fale palavras aleatórias enquanto tento me comunicar, as pessoas sempre são muito solicitas. Aliás, aqui está o meu grande erro de previsão com a República Tcheca: a cultura. Nós no Brasil nos achamos um povo caloroso e muito “welcoming”, enquanto julgamos que o povo europeu é frio e impessoal. Pois bem, não na República Tcheca. Claro, existe um tempo para se fixar uma amizade, mas quando você faz amizade com um Tcheco você descobre que eles são amáveis, gentis e sempre dispostos a ajudar. Até mesmo em bares e restaurantes, sempre que eu tive problema de comunicação fui muito bem assessorada e recebida com um sorriso. A comida… bom, esse papo fica para outro dia… hahahahaha

Um ponto de choque para mim foi o sistema de ensino tcheco. Muito bem, eu só posso falar da minha percepção e vivência, nunca estudei a fundo para conhecer as raízes do sistema de ensino tcheco, nem posso generalizar. O que vou dizer aqui é o que eu vivi enquanto brasileira fazendo um mestrado na República Tcheca.

Eu estudei International Development na Univerzita Palackého, que está situada na cidade de Olomouc. O curso é um misto de economia com ciências socias, basicamente um treinamento para assumir posições em instituições como Nações Unidas, Banco Mundial, ONG´s e etc… O meu primeiro choque foi com relação a quantidade de conteúdo. Logo na primeira aula os professores já nos passavam papers, textos, livros, tudo para ser lido num espaço curtíssimo de tempo. E então você pode contestar dizendo: “mas no Brasil também é assim!”, e você está certo. Contudo, no Brasil nem sempre todo o material passado é abordado em sala de aula. Na República Tcheca, sim. Se um professor te passa 100 páginas ele abordará todas as 100 páginas em uma única aula.

Com este background, nós podemos abordar outra peculiariedade do sistema de ensino na República Tcheca: do things by the book. No Brasil nós temos algum tipo de liberdade para dissertar sobre um tema, na República Tcheca aprendemos conforme o livro. Existe um intenso processo de “decoreba”. Datas, fatos históricos, nomes, pequenos detalhes, tudo isso será coberto e perguntado durante exames.

Em frente da minha faculdade

Para cobrir muito material e detalhes você precisa de tempo em sala de aula. Pois bem, na República Tcheca as aulas são intensas, longas e pontuais. Se está no seu calendário que a aula começará as 9 da manhã, então é melhor você estar no seu lugar com papel e caneta na mão as 9 da manhã. Se o professor te deu 10 minutos de intervalo, programe-se para ir ao banheiro, comer e beber em 10 minutos, pois não haverá nem um minuto de atraso. As aulas podem durar até 4 horas, e intervalo depende de cada professor. O conteúdo é denso e requer muita atenção, pois como eu disse, eles são apegados nos detalhes.

Para mim estudar na República Tcheca foi fantástico. Me fez abrir a cabeça para vários temas que eu desconhecia por ter estudado a minha vida toda na América. Hoje em dia posso dizer que me apego mais às minucias e procura entender mais profudamente sobre todos os temas. Estudar na República Tcheca também me fez aprender qual é o melhor método de aprendizagem para mim. Precisei descobrir em pouquíssimo tempo como ler, memorizar e internalizar fatos com riqueza de detalhes e de modo profundo.

Foi desafiador, mas faria tudo de novo!

No próximo post farei uma comparação entre o sistema de ensino tcheco e francês.

 

Catarina Braga