Cruzando Atlântico e saindo dos padrões


Nos últimos anos estou vivendo entre a Europa/Atlântico do Norte e o Brasil/Atlântico do Sul e tenho observado que este movimento tem efeito transformador em mim. É que a minha mundivisão eurocêntrica está se dissolvendo – digo minha, mas acredito que também das outras pessoas e comunidades – o verbo “dissolver” não significa aqui somente um eurocentrismo político, mas a visão ocidental do mundo assim como se formou durante a história. Para entender o mundo de hoje, temos que pensar de uma forma “herética”, isto é contra aqueles conceitos que outrora formaram a base da mundivisão ocidental.

 

Como escreve  Emmanuel Désveaux: Tout au long du Moyen Age, la pensée occidentale sest [simple_tooltip content=’se habituer = adaptar-se, acostumar-se à idéia’]habituée[/simple_tooltip] á l’idée que le monde dans sa totalité est oeuvre [simple_tooltip content=’obra divina’]oeuvre divine[/simple_tooltip] et que la Bible relate l´histoire de cette création.

[simple_tooltip content=’alargamento, ampliação‘]L´élargissement[/simple_tooltip] considérable de l´horizon qui résulte des grandes [simple_tooltip content=’descobrimentos‘]découvertes[/simple_tooltip] va exiger des [simple_tooltip content=’remettre en cause = pôr em causa de novo’]remises en cause douloureuses[/simple_tooltip] et de difficiles [simple_tooltip content=’ajustement = ajustamento, adaptação’]ajustements[/simple_tooltip], long processus [simple_tooltip content=’prévio’]préalable[/simple_tooltip] aux Lumieres qui, au nom de la raison, finira par [simple_tooltip content=’derrubar’]mettre à bas[/simple_tooltip] ce cadre biblique (Désveaux, 2003:12)

 

Na verdade, esta diluição da mundivisão ocidental começou já na Idade Média quando Copérnico apresentou a teoria do heliocentrismo (a criação divina não se encontra no centro do universo), continuou com o evolucionismo e transformismo de Darwin (a posição exclusiva do ser humano no universo foi desonrada pela idéia de que o ser humano vem do macaco) e culminou pela descoberta de Freud de que o ego não é o dono da casa (psique). Mas todas estas descobertas podem ser vistas como uma relativização radical da mundivisão ocidental que continua ainda hoje. Em outras palavras, a mundivisão universalista eurocêntrica é relativizada, mas o pensamento ocidental e a identidade ocidental continuam ficar apegados à herança do Iluminismo.

 

De fato, o maior questionamento da mundivisão ocidental foram os primeiros contatos com os povos indígenas. A partir do primeiro contato com os índios, os Europeus perguntaram a si mesmos se aqueles seres eram seres humanos e se faziam parte da criação divina: “Dès les premiers contacts avec les Amérindiens, la grande question qui se pose est celle de la nature et de l´origine de cette nouvelle humanité” (Desvéaux, 2003: 12). Como foi o resultado? Segundo Désveaux, o resultado foi “(…) nécessité de le convertir au christianisme, et non de l´étudier en tant que tel. C´est dans ce contexte d´aveuglement calculé qu´émerge la figure du “bon sauvage”, mas qui “ne descend pas d´Adam, mais appartient à la nature” (Desvéaux, 2003:12). No hemisfério do norte ainda hoje existe termo “pensée primitive” (Lucien Lévy-Bruhl) ou “un primitif” . O termo frequentemente usado no século XIX nas várias disciplinas científicas hoje se torna objeto de uma desconstrução lenta e talvez relutante (Michael Vannoy Adams, Carie Dohe e outros). O problema não é só a identidade dos “não-Europeus” aos olhos dos Europeus, mas junto com isso também a identidade dos Europeus, seus pensamentos e conceitos. A polaridade simplificada “Europa = racionalismo – não-Europa = irracionalismo” está perdendo cada vez mais o sentido, e nós estamos a procura de um conceito mais amplo.

 

O pensamento europeu manifestou a permanente aspiração pelo centralismo, universalismo, homogeneidade e pureza. Isso é bem evidente na forma como os Europeus concebiam história, como conquistaram e interpretaram regiões e culturas distantes, como “purificavam” a Europa dos elementos “estranhos”. Outra  tentação foi o fim da Guerra Fria e a ideia de Francis Fukuyama do fim da história: “L´idée d´une fin de l´histoire”, qui a hanté le paysage intellectuel après la fin de la guerre froide, suppose une homogénéisation anhistorique du monde” (Von Barloewen, 2003: 36). No outro extremo se encontrou “choc des civilisations” de Samuel Huntington o que foi conceito “qui résume le monde à un repli sur des images de l´ennemi antimodernes, fondamentalistes et anti-occidentalistes” (Von Barloewen, 2003:36). Este conceito conservador de Huntington do início dos anos 1990 constituiu uma resposta a uma globalização (mondialisation) acelerada cuja rapidez ameaçava  relativizar o Ocidente e os valores dele:

 

Le concept d´une histoire du monde comme histoire globale déborde aujourd´hui largement le cadre limité de l´Occident, dans la mesure où cette histoire pratique des extensions transculturelles qui dépassent les simples homogénéisations occidentales (Van Barloewen, 2003:36)

Advertência de Huntington de “choc de civilisations” pode ser vista como uma das formas do ocidentalismo que tem a sua tradição específica na Europa do Sul e nomeadamente na França. Assim o intelectual chileno Miguel Rojas-Mix descreveu o ocidentalismo de Charles Maurras e de l´Action française. Foi convencido de que as ditaduras latino americanas dos anos 1980 tem a sua origem justamente aqui:

Toutes les dictatures latino-américaines se proclament défenseurs de la civilisation occidentale et chrétienne (…). L´Amérique du Sud connait l´éclosion de dictatures que l´on peut qualifier d´”occidentalisme intégriste” ou d´”occidentalisme maurrassien”. Elles se caractérisent par une mystification de l´occidentalime et par la fiction de sa défense; par une conception organique et hiérarchique de l´Etat, fondée sur la famille et opposée à la démocratie, au système des partis et, surtout, à la lutte de classes (…) (Rojas-Mix, 1980:15).

 

Uma  ideologia parecida de ocidentalismo tiveram ditaduras na Espanha e em Portugal. Defensores do presidente Trump ou Brexit também se consideram defensores do ocidente assim como votadores da extrema direita na Europa. Na América Latina a resistência em relação à modernidade e consequentemente contra a globalização é muito maior do que na Europa porque

Une modernité qui, quant à l´histoire repose sur d´autres éléments que celle de l´Amérique du Nord ou de l´Europe. Dans l´espace culturel hispano-lusitanien, la rupture entre pensée médiévale et modernité a été beaucoup moins radicale que dans l´Allemagne de la Réforme, l´Angleterre de John Locke ou encore la France de Descartes (De Barloewen, 2003:36)

 

O problema é que não é como parar estas mudanças. Por exemplo na Espanha foi decidida exumação dos restos do ditador Franco (um dos maiores defensores do ocidentalismo) e assim a separação do passado anti-modernista. A Catalunha continua exigindo independência da Espanha. Modernidade resultante da tradição iluminista e significa pluralidade e aquilo que nós chamamos “alterité” (reconhecimento do outro):

Dans un monde aux modernités multiples, les Etats et les cultures peuvent revenir à leurs racines indigènes. Une reconnaissance mutuelle de l´autre dans son alterité même devient alors possible: une compréhension partagée, une estime réciproque. Les cultures occidentales ont le devoir d´intégrer d´autres expériences culturelles, et de s´ouvrir à elles. L´échange inter-culturel et interreligieux remplacerait alors la domination actuelle (De Barloewen, 2003:37).

 

 

Referências:

De Barloewen, Constantin. “Les Modernités multiples”, In: Le Nouvel Observateur Hors-série, juillet-aout 2013, p. 36-39.

Desvéaux, Emmanuel. “Brève histoire de l´anthropologie”, In: Le Nouvel Observateur Hors-série, juillet-aout 2013, p. 12-15.

Rojas-Mix, Miguel. “Charles Maurras en Amérique Latine”, Le Monde diplomatique, novembre 1980, p. 15.

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